Pais Solteiros

Está cada vez mais comum encontrar pais solteiros. São homens que estão se adaptando para exercer ao mesmo tempo o papel de pai e mãe.

Segundo relatório do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), divulgado em 2008 1, a porcentagem de famílias monoparentais masculinas (homem e filhos) no Brasil saltou de 2,1% em 1993 para 3% em 2007. Um crescimento considerável, principalmente se tratando de um país majoritariamente católico e onde a chefia feminina cresce ano a ano (Tabela 1). 2 Nos Estados Unidos, os homens solteiros já representam 24% dos que procuram uma barriga de aluguel (procedimento legal no país). A mudança na estrutura familiar é uma realidade, e a tendência é que esses números cresçam ainda mais.

Tabela 1

Número Médio de Filhos das Famílias com Filhos e Percentual das Famílias com Filhos Residentes até nove anos, segundo Tipos Região Metropolitana de São Paulo 1988/89-2000/01

tabela pais solteiros

Fonte: SEP. Convênio SEADE – DIEESE. Pesquisa de Emprego e Desemprego – PED.
(1) Incluem-se as famílias cuja idade da cônjuge ou da chefe não foi declarada.
Nota: Exclusive as famílias com outro tipo de arranjo familiar.

 

O pai solteiro

O mineiro Aggeo Simões se separou da esposa em 2005 quando a filha deles, Ava, tinha apenas um ano e meio. Após passar por um difícil período de adaptação, resolveu criar em 2009 o blog Manual do Pai Solteiro (www.manualdopaisolteiro.blogspot.com). “Eu queria mostrar para os pais solteiros que você não perde nadapais solteiros convivendo com o seu filho, aliás, só ganha”. Dessa forma, acabou virando conselheiro de muita gente. Suas postagens abordam desde o processo de adaptação, logo após a separação, até as descobertas e dúvidas que surgiram com o compromisso de cuidar sozinho de Ava, após a opção do ex-casal pela guarda compartilhada.

“Na época foi muito complicado. Eu precisei montar uma estrutura nova de vida, porque eu que saí de casa. O que decidi é que não seria um pai ausente, daqueles que somem por meses, eu queria participar da criação da minha filha”, conta o locutor, cantor e diretor de comerciais de TV, que fica com a criança as terças, quartas, sextas e também alguns finais de semana. No começo, Aggeo confessa que pedia dicas à ex-esposa, coisas como dar banho ou levar ao banheiro público, atividades que – se tratando de uma menina – geralmente são feitas pela mãe.

Apesar das dúvidas que surgiram no começo, ele não acredita que existam tarefas exclusivamente femininas ou masculinas. “Hoje, até mesmo no casamento, é preciso dividir igualmente. É claro que tem coisas que um tem mais facilidade que o outro” e exemplifica “Eu não corto a unha dela, peço para a mãe. Não que isso seja tarefa de mulher, é que não tenho habilidade mesmo”.

Ele também aprendeu muito com a filha, hoje com seis anos. Como bom desenhista, passou a fazer maquiagens artísticas, daquelas que toda criança gosta. Às vezes também brinca com Ava de autorama, brincadeira que ambos curtem. “Ela é super menininha, tem o quarto todo rosa. Já tentei jogar futebol com ela, mas ela não gostou. Aí também não forcei, não acho que tem que forçar”, revela Aggeo.

Conselhos para outros pais solteiros, ele tem vários, como saber dividir a vida de solteiro com o papel de pai. “Eu dou festinhas aqui em casa, fica aquela bagunça, mas se sei que a Ava vem no outro dia faço questão de arrumar tudo e deixar a casa pronta para ela, pois aqui é a casa dela também”. Ele também diz não ter trauma de casamento “até penso em casar de novo, ter outro filho, mas não agora. Acho que seria legal quando a Ava estivesse mais velha”, conclui.

O pai adotivo

Os separados não são os únicos casos de pais solteiros. Há ainda os pais adotivos. Gilberto Semensato é um deles. Solteiro, e com o desejo de ser pai, ele conta que foi após assistir algumas palestras sobre o tema adoção que tomou fôlego para a decisão. O assistente social de 45 anos foi o primeiro homem a conseguir o direito de licença-adotante de três meses, antes só concedido às mulheres. Por ser servidor público da Justiça do Trabalho, ele não precisou entrar com processo judicial, tudo foi feito no âmbito administrativo, mas abriu precedente para outros casos como o dele. Gilberto entrou com o processo no dia 05 de março de 2008, mas só pode usufruir da licença em junho de 2009, após muita burocracia e quando sua filha, Ana Luiza, já estava com um ano e oito meses.

O período entre a chegada da menina, com apenas quatro meses e a concessão da licença, 16 meses depois, foi exaustivo para Gilberto. Ele precisou abrir mão de duas férias vencidas e pedir licença-saúde para cuidar de sua filha sem que suas faltas fossem consideradas abandono de emprego. “Não se tratava de luxo, privilégio, uma forma de burlar o trabalho, mas sim um direito igualitário para atender ao princípio de prioridade às necessidades da criança”, ele explica sobre o benefício.

Gilberto mora com a mãe de 85 anos e também conta com a ajuda de tia Antonia, a babá que toma conta de Ana Luíza enquanto ele trabalha. Mas nas noites, fins de semana e feriados é ele quem assume todas as responsabilidades com a filha, hoje com dois anos e meio. Ao ser questionado se sofreu preconceito dos amigos por ser pai solteiro, ele responde: “Enfrentei reações das mais variadas possíveis. Não me faltaram admoestações e desconfianças. Acredito que minha atitude tenha mexido com muitas questões existenciais desses meus amigos.” E completa, mostrando os dois lados “Evidentemente alguns não souberam compreender e acompanhar as mudanças que eu tinha que passar. Mas felizmente outros superaram tudo isso e continuam presentes.”

E a figura da mãe, não faz falta? Gilberto, que trabalha como assistente social e, portanto, convive com pessoas e crianças que já passaram pelas mais diversas situações, acredita que não. Para ele, as crianças ressentem muito mais a ausência do pai. Ele, que se define como “pãe” (pai e mãe ao mesmo tempo), reforça que sua filha está cercada de figuras femininas: a avó, a babá, professoras da escolinha, amigas… “Acredito que dano maior seria viver institucionalizada ou como criança de rua […] Os sinais que Ana Luiza dá é de uma formação equilibrada e saudável”.

O pai tenta desfazer o tabu da adoção introduzindo o tema no dia a dia da criança. Todas as noites ele conta a história da “Menina Luizinha” a pedido de sua filha, aproveitando para encaixar nessas historinhas situações como quando ele foi buscá-la e como a escolheu, fazendo com que ela assimile tudo com naturalidade.

O conselho que Gilberto dá aos homens solteiros que pensam na adoção é que amadureçam a ideia, consultando assistentes sociais, psicólogos ou até mesmo fazendo uma terapia de apoio. Outro ponto importante é ter a ajuda de alguns familiares e amigos que estejam por perto e possam dividir algumas responsabilidades. Mas para ele o principal é consultar o próprio coração sobre a disponibilidade amorosa e à renúncia às zonas de conforto já criadas. Seu lema é “Plantando amor, gratificantemente se colhe amor!”.

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Fontes

(1) RETRATO DAS DESIGUALDADES DE GÊNERO E RAÇA. Brasília: Luana Pinheiro et al, 2008 (3. ed). ISBN: 978-85-7811-014-7. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/destaque/Pesquisa_Retrato_das_Desigualdades.pdf >. Acesso em: 25 mai. 2010. (2) BOLETIM MULHER E TRABALHO.São Paulo: Fundação SEADE, 2002. Disponível em: <http://www.seade.gov.br/produtos/mulher/boletins/boletim_10/boletim_Mutrab10.pdf>. Acesso em: 15 jul. 2010.

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